pai,
Sinto uma mágoa e um ressentimento enormes em relação a ti. Não porque deixaste a nossa Mãe. Mas porque deixaste de ser o nosso pai.
Sou da opinião que ninguém é de ninguém, e mais vale acabar com algo que não nos faz feliz. Só que isso não significa que os filhos deixam de o ser quando a relação termina. Sei que na altura insististe para que fôssemos passar um fim de semana contigo a cada 15 dias. Mas pelas memórias que guardo desses fins de semana, hoje questiono o verdadeiro motivo por detrás dessa insistência. Chego à conclusão que não era pelo gosto em estar com os teus filhos. Era apenas uma forma de violência psicológica sobre a nossa Mãe. O que tu nunca pensaste foi na violência que isso era para mim e para o André.
Há coisas dessa altura que me lembro como se tivessem sido ontem, apesar de se terem passado há quase 16 anos.
Lembro-me dos nervos que antecipavam cada fim-de-semana contigo, aquele aperto no peito, saber que íamos passar uns dias longe do nosso lar e com quem não nos queria bem.
Lembro-me de uma sexta-feira em que nos serviste para o jantar uns bifes requentados, que eram tão duros que nem eu, nem o André os conseguimos comer. Atirámo-los janela fora, para alegria do cãozinho que vivia no terraço do rés-do-chão do prédio.
Lembro-me de uma altura em que o André estava doente e eu te alertei que ele tinha de tomar o antibiótico a meio da noite. E tu trouxeste-me um despertador para que EU lhe desse a medicação. Mas eu entendo, estavas só a ensinar-me a ser responsável...
Nunca me hei-de esquecer do dia que fomos a Peniche, e essa pessoa que tens a teu lado afirmar que já tinha "andado nas Docas por 5 contos". Mas que bonito exemplo para os teus filhos.
Lembro-me dessa mesma pessoa me dizer, mais que uma vez, "a tua mãe é uma puta" e da tua conivência com este tipo de atitudes.
O André (felizmente) pouco se lembra disto. Mas eu não esqueço. Quem me conhece sabe que não guardo ressentimentos e perdoo. Tu és a excepção. Tu e essa pessoa. Não a culpo, apesar de não a tolerar nem um bocadinho. Afinal de contas ela só procurava um burro que a carregasse.
TU é que não foste Homem o suficiente para defender os nossos interesses, para nos pôr em primeiro lugar. Deixaste de ser Homem e passaste a ser uma marioneta, para servir outros interesses. E repara bem no que isso resultou. A relação comigo ou com o André não existe. E a relação com o teu irmão e com os teus pais está envenenada. Até deles te afastaste. E até eles, que na altura te defenderam com unhas e dentes, já viram a verdadeira cara da pessoa que tens a teu lado. E já to disseram! Caramba, está escarrapachado no livro do avô!!
Lá está, o pior cego é aquele que não quer ver. A sabedoria popular no seu melhor.
Espero que um dia acordes e (te a)percebas (d)o impacto que as tuas (in)acções tiveram.
A esperança é a última morrer, mas sinceramente a minha está quase a dar os últimos suspiros.
Catarina
P.S.: Obrigado por me fazeres tão forte.
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Deixei de celebrar o Dia do Pai há 16 anos. Porquê? Porque deixei de ter alguém na minha vida digno de se chamar "Pai".
Guardo uma revolta dentro de mim há demasiado tempo. Senti que era altura de a deitar cá para fora e encarregar o Universo de fazer chegar a mensagem. Estou em paz.
E sobretudo acredito no Karma :)
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